domingo, 8 de maio de 2011

O sangue latino de Eduardo Galeano

Nascido em Montevideo 1940, o escritor uruguaio Eduardo Galeano respira América Latina, é um poeta e também um provocador. Sua trajetória como jornalista e escritor começa quando vendeu sua primeira charge aos 14 anos ao jornal socialista El Sol. No começo da década de 60, transitou pelos jornais Marcha e Época, trabalhando neste último como editor. 
Em 1971 publicou As Veias Abertas da América Latina, sua obra mais conhecida e impactante. Nela, faz uma análise crítica da exploração econômica e política sofrida pelos países da América Latina desde o processo de colonização.
Obrigado a deixar o Uruguai devido ao golpe militar em 1973, buscou refúgio na Argentina onde lançou uma revista sobre cultura chamada Crisis. No entanto, em 1976 o golpe militar na Argentina colocou seu nome na lista dos esquadrões de morte e temendo por sua vida, exilou-se na Espanha.
Só voltou ao Uruguai em 1985, quando o país iniciou o processo de redemocratização, vivendo até hoje em Montevideo.
Com várias obras publicadas como a trilogia Memória do fogo (1982-1986), o Livro dos Abraços (1989), Mulheres (1997), O Teatro do Bem e do Mal (2002) e tantas outras que deixo de fora, Galeano é um escritor ímpar, pois consegue trazer à tona, com muita crítica e poesia, episódios que a história oficial ocultou. Definindo-se como "o escritor que remexe no lixão da história mundial", suas obras deveriam ser leitura obrigatória em todos os estabelecimentos de ensino.
" O medo ameaça,
Se você ama, terá AIDS,
Se fuma, terá câncer,
Se respira, terá contaminação,
Se bebe, terá acidentes,
Se come, terá colesterol,
Se fala, terá desemprego,
Se caminha, terá violência,
Se pensa, terá angústia,
Se duvida, terá loucura,
Se sente, terá solidão."
                                           Eduardo Galeano

Acessem o link e assistam ao documentário Sangue Latino:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=w8rOUoc_xKc

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ser ou não ser...vegetariano!

Aderi à dieta vegetariana há 3 anos, mas gosto de dizer que "estou" e não que "sou" vegetariana . Apesar de eu simpatizar com o vegetarianismo há muito tempo, enfrentava o dilema que a maioria dos carnívoros enfrenta: como deixar de comer carne?
Confesso que meus filhos me deram um empurrão, pois, num acampamento que fizemos  num sítio Hare Krishna, eles brincaram e interagiram com diversos animais, incluindo os que são comida em potencial. Quando chegamos em casa, ao colocar um frango assado na mesa, fui bombardeada por protestos: como é que eu tinha coragem de colocar um "amigo" na mesa, etc, etc. Esse evento foi decisivo pois a partir daí foi consenso que seguiríamos uma dieta vegetariana.
No começo não foi nada fácil, não pelo fato de substituir a carne por outros alimentos (a literatura e um bom nutricionista ajudam muito) mas pela praticidade que a industrialização nos oferece. Afinal, é mais fácil e rápido fritar um bife do que preparar uma abobrinha.
Mas o que me causa estranheza é a reação de algumas pessoas quando são informadas sobre nossa dieta. Uns ficam indignados, pois acreditam que fomos vítimas de "lavagem cerebral", outros ficam aflitos pois "não sabem o que vão nos dar para comer" e outros acreditam que vou matar meus filhos com uma dieta carente de proteínas...Difícil a conversa...
Creio que qualquer mudança de comportamento provoca reações, mas nunca pensei que a dieta alimentar pudesse causar tanta balbúrdia. Obviamente, não gosto de radicalizar. Qualquer um pode comer carne perto de mim que não vou repreender ou fazer cara feia. Respeito a opção das pessoas e gosto quando respeitam a minha. Agora, quando me perguntam quais os motivos que me levaram à aderir ao vegetarianismo, costumo responder que ele é principalmente político.
Os recursos utilizados pelo mercado da carne são estratosféricos. Só como exemplo, se substituíssemos a área, água e energia utilizada nos pastos e utilizássemos na produção de vegetais, poderíamos alimentar um número maior de pessoas. Outro ponto forte é o tratamento dado aos animais. A maioria fica em situação de confinamento e privação chegando ao limite de praticar canibalismo, fato muito comum entre os suínos, por exemplo. Os criadores solucionam o problema extraindo-lhes os dentes e as caudas. Já as aves têm o bico queimado para que não machuquem umas às outras. Poderia citar aqui uma lista sem fim das torturas praticadas nos abatedouros. Mas não é o caso.
 Não acredito que consumir carne  justifica os maus tratos a esses animais. É essa relação que mais me incomoda, pois ao tratarmos esses seres como meros objetos que devem nos servir, sua "existência" é negada o que facilita o extermínio. Sei como é, já agi assim com cobaias quando realizava pesquisas em laboratório. Transformava-os em objetos para poder trabalhar até o dia em que me dei conta de que eles, assim como eu, estavam "vivos". Difícil é esquecer suas reações...

      

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Que Nhanderu faça com que a verdade e a justiça prevaleçam

Semana difícil, começou agitada. A chegada dos Guarani-kaiowá  do MS , provocou comoção nas comunidades Guarani Mbyá de SP. O motivo: julgamento dos assassinos do cacique Marcos Veron, crime ocorrido em 2003.
Segunda eu estava numa aldeia em SP junto com um companheiro de trabalho, conversando com algumas lideranças, quando toca meu celular e uma amiga que estava no TJ acompanhando o julgamento pede para perguntarmos  se seria possível os Kaiowá  ficarem alojados na aldeia. Imaginamos que seria complicado acomodá-los, uma vez que eram 26 pessoas, incluindo algumas crianças. Mas novamente os Guarani Mbyá nos surpreenderam: imediatamente se articularam e disseram que sim, que poderiam recebê-los sem problema nenhum.
O que comove é a extrema solidariedade que presenciamos, pois apesar dos recursos escassos, os Guarani Mbyá fizeram o possível para receber seus parentes do MS com um jantar e com um carinho especial.
Estamos apreensivos, pois como me perguntou um amigo:
- Será que um dia, um matador de índio será punido nesse país??
É aterrorizante, mas o Estado do MS está promovendo um verdadeiro genocídio contra os Guarani-kaiowá. Acampados em beiras de estradas e numa situação de extrema vulnerabilidade, esse povo vem sofrendo perdas irreparáveis. Várias lideranças foram assassinadas brutalmente em decorrência de conflitos de terras e o sentimento anti-indígena na região borbulha. Tanto é que o MPF pediu a transferência do julgamento para SP por ficar em dúvida quanto à isenção dos jurados locais, uma vez que os fazendeiros tem grande influência na região.
Os dias estão sendo tensos, mas vamos esperar e acreditar que a justiça prevaleça!!
O cacique Marcos Veron, 72 anos, assassinado em 12 de janeiro de 2003

domingo, 30 de janeiro de 2011

BBB de indigenistas

Tive que sumir um tempo do blog. Motivo: ficar trancada numa chácara ministrando um curso de formação de indigenistas. Indigenistas trabalham com comunidades indígenas e, nesse caso, os cursistas eram provenientes de todos os cantos do Brasil.
Experiência bacana, já que pude ter uma idéia da situação vivida pelos povos indígenas que habitam os lugares que consideramos os mais ermos do país. Mas outra hora escrevo sobre isso.
O que é muito curioso e todo ano observo a mesma coisa (já é o quarto..rs), é a reação dos "confinados". Só para esclarecer: o curso dura 20 dias e o conteúdo é bem denso. Assim, as pessoas passam por várias fases, que eu classifico em 6:

Fase 1 - Todo mundo acha bacana, novidades são sempre legais.
Fase 2 - O curso começa a pesar, o companheiro de quarto já não é tão legal assim.
Fase 3 - As obrigações diárias vão ficando insuportáveis, as panelas vão se formando.
Fase 4 - Os conflitos começam: discussões acaloradas, valores colocados à prova.
Fase 5 - Surtos, choros, sensação de impotência ao extremo.
Fase 6 - Recuperação lenta (após nossas orientações e tentativas de convencê-los da importância do papel de cada um..) e retomada da confiança no trabalho.

Felizmente, quando chega o momento de voltar para suas casas e seus trabalhos, o pessoal já está mais tranquilo e confiante. No entanto, é curioso analisar o comportamento humano em situações diferenciadas. Fico imaginando como deve ser vivenciar uma situação limite como uma guerra civil, um desastre natural (como o que ocorreu no RJ). Aliados à privações, o confinamento e a sensação de impotência tornam-se uma verdadeira bomba relógio, onde as emoções se sobrepõem à racionalidade. Não foi à toa que os mineiros do Chile impressionaram...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal ou caos?

Todo ano é a mesma coisa: prometo a mim mesma que não vou entrar na paranóia do “fim de ano” mas é impossível. Todos os compromissos, reuniões e confraternizações acontecem ao mesmo tempo, parecem ter efeito cumulativo (não acabam nunca) e a exaustão me invade...É possível que eu durma no meio da ceia de Natal.
Hoje mesmo fui dar um rolê para comprar umas coisinhas. Tento fugir do convencional, convencer meus filhos de que é um momento importante para refletir valores que parecem se liquidificar cada vez mais e blá, blá, blá. Mas, no fim do dia, me vejo comprando um tal de “zhu zhu pet” , um hamster de brinquedo que nem imaginava existir....
São as contradições  que a gente enfrenta na pós-modernidade. Fazer o quê?
Parece que ressignificamos o Natal e o transformamos numa festa caótica, onde a desordem impera e todo o tipo de excesso é permitido, incluindo o gastronômico. Afinal, é um dos poucos momentos em que podemos justificar o consumismo desenfreado e a desordem que se instala.
Não consigo evitar e sempre fico pensando o que o menino Jesus acharia disso tudo. Pobrezinho, Noel vem tomando seu lugar...
 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUAL O RUMO? DIREITOS HUMANOS OU BARBÁRIE?


O tema é espinhoso mas  há tempos eu pensava em escrever algo sobre a questão dos direitos humanos, principalmente na época em que realizei um trabalho para uma organização em que eu era tutora de uma turma num curso intitulado “Direitos Humanos e Mediação de Conflitos”. Ótimo curso por sinal. Foi uma experiência reveladora, já que a turma era muito heterogênea, com inúmeras divergências sobre a questão. As discussões eram acaloradas e por várias vezes eu tive que intervir para acalmar os inflamados.
Mas o que mais me chamou a atenção e continua chamando, é o equívoco que muita gente comete ao pregar que “direitos humanos é só para bandido” e que certas coisas acontecem pois “no Brasil não existe pena de morte”. Sempre me perguntei o que está por trás desse jargão, reforçado constantemente pelos trogloditas dos (pseudo)telejornais, que instigam o público com questões apelativas do tipo “e se fosse com a sua família?”.
Não vou ficar aqui explicitando as consequências bizarras da pena de morte como política de estado, pois muita gente já fez isso. Quem quiser que corra atrás (sugestão: http://www.dhnet.org.br/direitos/penamorte/belisario_santos.html).
 No entanto, o que é inadmissível é a hipocrisia, já que os que “defendem a vida” vociferando contra a descriminalização do aborto, são os mesmos que tentam, a todo custo, instaurar a pena de morte no país. Afinal, que “vida” defendem? Pois, provavelmente acreditam que a vida pode ser hierarquizada e que podem classificá-la através de algum gradiente de concentração, onde uma vale mais e outra menos.
A questão que sempre coloco é: o que nos difere de um assassino? Assassiná-lo não nos tornaria iguais, colocando-nos no mesmo patamar?
Para os que acreditam que direitos humanos é só para bandido, sugiro que participem de alguma organização que trabalhe com o tema. Aí podem falar a vontade, mas com propriedade....
Enquanto isso, deixo um texto do Eduardo Galeano para reflexão:

A cultura do terror 4
A extorsão,
O insulto,
A ameaça,
O cascudo,
A bofetada,
A surra,
O açoite,
O quarto escuro,
A ducha gelada,
O jejum obrigatório,
A comida obrigatória,
A proibição de sair,
A proibição de se dizer o que se pensa,
A proibição de fazer o que se sente,
E a humilhação pública
São alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa!!
                                                                                                          Eduardo Galeano

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Avatar Guarani

Ontem estive na aldeia Guarani Tekoa Pyau, com a qual desenvolvo meu trabalho. O objetivo era participar de uma reunião com a FUNAI para discutir a reestruturação do órgão.
Interessante  que, numa pausa, logo após servirem o almoço, uma das lideranças me chamou para perto do laptop (sim, eles tem usado novas tecnologias!) e disse:
- Luciana, venha ver aqui no laptop o filme que a gente fez. Chama “Avatar Guarani”.
Incrível! Simplesmente fizeram uma refilmagem de uma belíssima cena do “Avatar”, com as crianças da aldeia atuando de forma primorosa. Eu fiquei literalmente encantada, pois além de a cena ser extremamente poética, os Guarani conseguiram expressá-la com uma sensibilidade fora do comum.
Lembro que quando assisti ao filme, foi inevitável  associá-lo  com a situação da comunidade. Afinal, o que James Cameron fez, foi uma releitura da ocupação inglesa na América do Norte, que teve como consequência o extermínio de vários povos. Obviamente, como o filme é dirigido também ao público infantil, era importante que tivesse um final feliz.
 Os Guarani (assim como os navi do Avatar) possuem uma relação estreitíssima e de equivalência com a floresta, especificamente com a Mata Atlântica ou Ka’aguy em sua língua. Constantemente, indignam-se com a destruição desenfreada dos recursos naturais pelos juruá (não-índios) e questionam a viabilidade dos nossos padrões de consumo.
Considerados estrangeiros em sua própria terra e encurralados pela cidade que os engole cada vez mais, os Guarani buscam novas formas de comunicação com a sociedade envolvente para enfrentar a vulnerabilidade e adversidades a que são submetidos.