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quarta-feira, 30 de maio de 2012

"Vocês sabiam que as árvores falam?"

Tatanga Mani (Búfalo Andarilho) foi um importante líder dos índios Stoney. Nasceu em 20 de março de 1871 e desempenhou um papel fundamental como emissário da paz entre seu povo e o governo canadense. Frequentou as escolas dos brancos sem deixar de "estudar a natureza", tornando-se um verdadeiro diplomata. Já idoso, foi convidado pelo governo para uma volta ao mundo como representante dos indígenas. Morreu em 1967, sempre defendendo que a ligação do homem com a natureza é a chave para sua própria sobrevivência. 
Grande orador, seus discursos eram profundos,  além de provocadores: 

" Éramos um povo sem lei, mas nos dávamos muito bem com o Grande Espírito, criador e legislador de tudo. Vocês brancos, diziam que éramos selvagens. Vocês não entendiam nossas preces. Nem procuraram entender. Quando cantávamos para o Sol, a Lua ou o Vento, diziam que estávamos adorando ídolos. Sem compreender, nos condenavam como almas perdidas, só porque nossa forma de adoração era diferente da de vocês.

Tatanga Mani (Búfalo andarilho)
Víamos a obra do Grande Espírito em quase tudo: sol, lua, árvores, vento e montanhas. Às vezes nos aproximávamos Dele através dessas coisas. Havia algum mal? Acho que temos uma crença verdadeira no ser supremo, uma fé mais forte que a da maioria dos brancos que nos chamam de pagãos...Vivendo junto à natureza e do seu criador, os índios não vivem na escuridão.
Vocês sabiam que as árvores falam? Pois é verdade. Falam entre si, e falarão com você se quiser escutar. O problema é que os brancos não escutam. Não aprenderam a escutar os índios, e assim não creio que possam ouvir outras vozes na natureza. Mas eu aprendi um bocado com as árvores: às vezes sobre o tempo, às vezes sobre os animais, às vezes sobre o Grande Espírito".

Mais:

- Mc Luhah, T.C. Pés nus sobra a Terra sagrada: um impressionante auto-retrato dos índios americanos. Ed. L&PM.1986.



segunda-feira, 28 de maio de 2012

O pensamento livre

Que Albert Einstein (1879-1955) era um grande humanista é de conhecimento de muitos. Porém, a dimensão do humanismo de Einsten é algo notável, uma vez que sua crença na humanidade persistia mesmo diante de atrocidades como a guerra. Pacifista convicto e crítico incansável do regime militar, via o exército como a pior das instituições, que que deveria ser boicotada e banida de vez da sociedade:

"Creio que a recusa ao serviço militar, pela objeção de consciência simultaneamente afirmada por cinquenta mil convocados ao serviço, teria um poder irresistível...Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, tem de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra".

Chamava os intelectuais para a responsabilidade sobre os rumos da sociedade. A atmosfera era tensa, a ameaça da Segunda Guerra Mundial pairava no ar e a opinião pública fora tomada por um "nacionalismo cego"  pela atividade de "políticos reacionários". Diante do impasse, o recado aos intelectuais foi objetivo:

" Que deve fazer a minoria intelectual contra esse mal? Só vejo uma saída possível: a revolucionária, da desobediência, a da recusa a colaborar, a de Gandhi. Cada intelectual, citado diante de uma comissão, deveria negar-se a responder. O que equivaleria a estar pronto a deixar-se prender, a deixar-se arruinar financeiramente, em resumo, a sacrificar seus interesses pessoais pelos interesses culturais do país."

Defendia uma educação libertária e atentava para a importância das Ciências Humanas, sobretudo da História e da Filosofia como instrumentos para a formação de um indivíduo consciente, altruísta e não apenas um tecnocrata. Preocupava-se com a competitividade que insistia em entranhar-se no meio social e acadêmico:

"Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falacioso pretexto da eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural e chegam a suprimir os progressos nas ciências do futuro...O ensino deveria ser assim: quem o recebe o recolha como um dom inestimável, mas nunca como uma obrigação penosa".

Homem simples, espirituoso e uma das grandes mentes que a humanidade já teve, quem o conheceu afirmava que era um ser humano inacreditável, tamanha sua humildade.

Mais:

Einstein, Albert. Como vejo o mundo. Ed. Saraiva.2011



terça-feira, 22 de maio de 2012

Kiringue: a criança Guarani



Criada para a autonomia, kiringue, a criança Guarani, é livre, aprende com os erros, adquire habilidades  e responsabilidades desde muito cedo. Lindas, são a expressão da continuidade e esperança de seu povo.

Irmãos (foto: Luciana Galante)

Encantadoras como todas as crianças, sonham com rios cristalinos onde possam nadar, frutos silvestres que possam colher e animais com os quais possam brincar.

O quati fujão (foto: Luciana Galante)

Observadoras, atentam para o universo ao redor e interagem com a destreza de quem já habita essa terra há muito tempo. 

Olhos de jabuticaba (foto: Luciana Galante)

Criativas, seu imaginário lhes permite lidar com imprevistos e ir além, extrapolando fronteiras e limites. 

O guarda-chuva (foto: Luciana Galante)
Encontram a felicidade na simplicidade do coletivo, que insiste e resiste, enquanto nos isolamos encastelados por um império de futilidades e necessidades criadas.






sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bandeirantes faz mais uma vítima Guarani: a história se repete

Cheguei em Tekoa Pyau ontem e encontrei a aldeia mergulhada em tristeza, em luto novamente. Não está sendo um ano fácil, ocorreram muitas baixas em pouco tempo. Dessa vez, quem virou estrela foi Rodinei, um jovem Guarani de 22 anos, vítima de atropelamento na Rodovia dos Bandeirantes. Ainda não se sabe ao certo quais foram as circunstâncias do acidente. Sabemos que foi à noite, por volta das 21h e que ele estava acompanhado de dois amigos. Ambos não conseguem falar, estão em estado de choque.
Rodinei fazia parte de um grupo de jovens na aldeia muito articulado, envolvido com questões de interesse  coletivo e, como disseram os Guarani, um rapaz muito tranquilo, prestativo e que seguia arandu porã (o bom conhecimento), o que significa, segundo a tradição, que sua conduta era impecável. Rodinei deixou mulher e dois filhos pequenos. 
Vale ressaltar que este não foi o único caso de atropelamento nas proximidades da aldeia. Ano passado a Rodovia dos Bandeirantes também fez vitimas. 
Espremida pela Estrada Turística do Jaraguá e pela Rodovia dos Bandeirantes, as lideranças de Tekoa Pyau há tempos temem pela segurança de seus moradores, sobretudo as crianças, já que estas precisam atravessar a estrada para frequentar a escola. 
É urgente discutir a vulnerabilidade em que se encontram os moradores de Tekoa Pyau e que o poder público garanta sua segurança. 
Impressiona como o legado bandeirante atravessa a história e perpetua o medo: Anhanguera, Bandeirantes e Raposo Tavares são apenas alguns exemplos de como o nosso estado glorifica aqueles que espalharam terror, escravizaram assassinaram e, mesmo indiretamente, continuam massacrando indígenas.

                                               Rodovia dos Bandeirantes, ao fundo o Pico do Jaraguá
                                                                                        (Foto: Daniel Souza Lima)