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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal ou caos?

Todo ano é a mesma coisa: prometo a mim mesma que não vou entrar na paranóia do “fim de ano” mas é impossível. Todos os compromissos, reuniões e confraternizações acontecem ao mesmo tempo, parecem ter efeito cumulativo (não acabam nunca) e a exaustão me invade...É possível que eu durma no meio da ceia de Natal.
Hoje mesmo fui dar um rolê para comprar umas coisinhas. Tento fugir do convencional, convencer meus filhos de que é um momento importante para refletir valores que parecem se liquidificar cada vez mais e blá, blá, blá. Mas, no fim do dia, me vejo comprando um tal de “zhu zhu pet” , um hamster de brinquedo que nem imaginava existir....
São as contradições  que a gente enfrenta na pós-modernidade. Fazer o quê?
Parece que ressignificamos o Natal e o transformamos numa festa caótica, onde a desordem impera e todo o tipo de excesso é permitido, incluindo o gastronômico. Afinal, é um dos poucos momentos em que podemos justificar o consumismo desenfreado e a desordem que se instala.
Não consigo evitar e sempre fico pensando o que o menino Jesus acharia disso tudo. Pobrezinho, Noel vem tomando seu lugar...
 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

QUAL O RUMO? DIREITOS HUMANOS OU BARBÁRIE?


O tema é espinhoso mas  há tempos eu pensava em escrever algo sobre a questão dos direitos humanos, principalmente na época em que realizei um trabalho para uma organização em que eu era tutora de uma turma num curso intitulado “Direitos Humanos e Mediação de Conflitos”. Ótimo curso por sinal. Foi uma experiência reveladora, já que a turma era muito heterogênea, com inúmeras divergências sobre a questão. As discussões eram acaloradas e por várias vezes eu tive que intervir para acalmar os inflamados.
Mas o que mais me chamou a atenção e continua chamando, é o equívoco que muita gente comete ao pregar que “direitos humanos é só para bandido” e que certas coisas acontecem pois “no Brasil não existe pena de morte”. Sempre me perguntei o que está por trás desse jargão, reforçado constantemente pelos trogloditas dos (pseudo)telejornais, que instigam o público com questões apelativas do tipo “e se fosse com a sua família?”.
Não vou ficar aqui explicitando as consequências bizarras da pena de morte como política de estado, pois muita gente já fez isso. Quem quiser que corra atrás (sugestão: http://www.dhnet.org.br/direitos/penamorte/belisario_santos.html).
 No entanto, o que é inadmissível é a hipocrisia, já que os que “defendem a vida” vociferando contra a descriminalização do aborto, são os mesmos que tentam, a todo custo, instaurar a pena de morte no país. Afinal, que “vida” defendem? Pois, provavelmente acreditam que a vida pode ser hierarquizada e que podem classificá-la através de algum gradiente de concentração, onde uma vale mais e outra menos.
A questão que sempre coloco é: o que nos difere de um assassino? Assassiná-lo não nos tornaria iguais, colocando-nos no mesmo patamar?
Para os que acreditam que direitos humanos é só para bandido, sugiro que participem de alguma organização que trabalhe com o tema. Aí podem falar a vontade, mas com propriedade....
Enquanto isso, deixo um texto do Eduardo Galeano para reflexão:

A cultura do terror 4
A extorsão,
O insulto,
A ameaça,
O cascudo,
A bofetada,
A surra,
O açoite,
O quarto escuro,
A ducha gelada,
O jejum obrigatório,
A comida obrigatória,
A proibição de sair,
A proibição de se dizer o que se pensa,
A proibição de fazer o que se sente,
E a humilhação pública
São alguns dos métodos de penitência e tortura tradicionais na vida da família. Para castigo à desobediência e exemplo de liberdade, a tradição familiar perpetua uma cultura do terror que humilha a mulher, ensina os filhos a mentir e contagia tudo com a peste do medo.
- Os direitos humanos deveriam começar em casa!!
                                                                                                          Eduardo Galeano

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Avatar Guarani

Ontem estive na aldeia Guarani Tekoa Pyau, com a qual desenvolvo meu trabalho. O objetivo era participar de uma reunião com a FUNAI para discutir a reestruturação do órgão.
Interessante  que, numa pausa, logo após servirem o almoço, uma das lideranças me chamou para perto do laptop (sim, eles tem usado novas tecnologias!) e disse:
- Luciana, venha ver aqui no laptop o filme que a gente fez. Chama “Avatar Guarani”.
Incrível! Simplesmente fizeram uma refilmagem de uma belíssima cena do “Avatar”, com as crianças da aldeia atuando de forma primorosa. Eu fiquei literalmente encantada, pois além de a cena ser extremamente poética, os Guarani conseguiram expressá-la com uma sensibilidade fora do comum.
Lembro que quando assisti ao filme, foi inevitável  associá-lo  com a situação da comunidade. Afinal, o que James Cameron fez, foi uma releitura da ocupação inglesa na América do Norte, que teve como consequência o extermínio de vários povos. Obviamente, como o filme é dirigido também ao público infantil, era importante que tivesse um final feliz.
 Os Guarani (assim como os navi do Avatar) possuem uma relação estreitíssima e de equivalência com a floresta, especificamente com a Mata Atlântica ou Ka’aguy em sua língua. Constantemente, indignam-se com a destruição desenfreada dos recursos naturais pelos juruá (não-índios) e questionam a viabilidade dos nossos padrões de consumo.
Considerados estrangeiros em sua própria terra e encurralados pela cidade que os engole cada vez mais, os Guarani buscam novas formas de comunicação com a sociedade envolvente para enfrentar a vulnerabilidade e adversidades a que são submetidos.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Darwin, o gênio em conflito

Sou uma grande admiradora de Darwin e quero compartilhar este artigo que escrevi durante as comemorações dos 150 anos da teoria da evolução que ocorreram em 2009:
Charles Robert Darwin foi provavelmente o naturalista mais polêmico que já existiu. Este cientista britânico fundou as bases da teoria moderna da evolução e mudou todo o pensamento contemporâneo.
Nasceu em 12 de fevereiro de 1809, filho do médico Robert Darwin e de Susannah Wedgood Darwin, que faleceu quando o naturalista tinha apenas oito anos.  Desde cedo Darwin demonstrou interesse pelas ciências naturais, colecionando insetos (principalmente besouros, sua grande paixão), conchas e pedras, além de realizar observações geológicas e botânicas. Cursou medicina por um breve período, exclusivamente para agradar ao pai. No entanto, as práticas cirúrgicas realizadas sem anestesia (ainda não descoberta na época) lhe causavam verdadeira repulsa. Em 1825, como não se mostrara um aluno muito exemplar, o pai retirou-o da faculdade de medicina, período em que as relações entre pai e filho ficaram abaladas:
“Meu pai me disse uma vez algo que me magoou profundamente:
- Você  será uma desgraça para si mesmo e sua família.”
            Como a família era religiosa, o pai sugeriu então que se tornasse pastor e, para isso, era necessário concluir a Universidade. Foi enviado à Cambridge, onde se encantou com os estudos de botânica do professor John Stevens Henslow, com quem estabeleceu uma longa amizade e que posteriormente o informaria sobre a viagem que mudaria sua vida.

Em 27 de dezembro de 1831, indicado pelo professor Henslow, o naturalista embarcou no H.M.S. Beagle, navio comandado pelo capitão Fitz-Roy numa viagem ao redor do mundo que duraria cinco anos, cujo objetivo era observar e estudar as características geológicas e naturais dos locais visitados. Contudo, o mau gênio do capitão e suas idéias preconceituosas dificultaram a convivência a bordo. Darwin era abolicionista convicto e diversas vezes travou discussões acaloradas com Fitz-Roy por este ser a favor da escravidão.
Apesar de obscura, a passagem de Darwin pelo Brasil foi muito significativa. O naturalista esteve por aqui no ano de 1832, permanecendo alguns meses reunindo uma grande coleção entomológica e realizando inúmeras observações sobre a fauna e a flora, que o impressionaram muito.
No entanto, foi a visão da escravidão que o marcou, deixando-o horrorizado. Impressão esta que jamais se extinguiu:
“Perto do Rio de Janeiro eu morava em frente à casa de uma velha senhora que mantinha torniquetes de metal para esmagar os dedos de suas escravas. Eu fiquei em uma casa em que um jovem caseiro mulato, diariamente e de hora em hora, era vituperado, espancado e perseguido o suficiente para arrasar com o espírito de qualquer animal. Eu vi um garotinho, de seis ou sete anos, ser castigado três vezes na cabeça com um chicote para cavalo (antes que eu pudesse interferir) por ter-me servido um copo d’água que não estava muito limpo”.  
Em agosto de 1836, devido a ventos contrários, o Beagle voltou ao Brasil, onde permaneceu atracado alguns dias. Ao deixar o Brasil no mesmo mês, o naturalista desabafa:
“Dou graças a Deus e espero nunca mais visitar um país escravocrata”.
A viagem realizada à América do Sul e a exuberância da paisagem marcaram o jovem :
“Vêm-me agora à lembrança a luxuriosa vegetação dos trópicos e também a grandiosidade dos extensos desertos da Patagônia e das montanhas revestidas de vegetação da Terra do Fogo, que tanto me encantaram deixando em mim uma impressão indelével”.
Foi durante o período em que viajou a bordo do Beagle, sobretudo a permanência em Galápagos, que Darwin acumulou dados e conhecimentos para lançar, em novembro de 1859, uma das obras mais polêmicas do século XIX : A Origem das Espécies.
Mas afinal, por que a “Origem” incomoda até hoje?
A teoria da evolução propõe que todas as espécies existentes surgiram,  a partir de ancestrais comuns, podendo sofrer modificações ao longo do tempo, sendo a seleção natural  o principal agente sobre as variações individuais. Assim, as variações favoráveis à manutenção da espécie tendem a se manter, enquanto variações desfavoráveis tendem a desaparecer.
Ao admitir que as espécies não são imutáveis, ou seja, que sofrem transformações ao longo do tempo originando novas formas de vida, a teoria da evolução mexe na ferida narcísica da humanidade, pois o homem  deixa de ser o centro do universo. Dessa forma, Darwin nos tira do mundo divino, colocando o homem no mesmo patamar das demais espécies, rechaçando sua arrogância e superioridade em relação aos outros seres vivos, conflitando com a doutrina criacionista.
É importante ressaltar que a evolução não é programada, ou seja, ela ocorre aleatoriamente, não caminha para uma direção, nem finalidade. Uma espécie não evolui para melhor nem para pior, simplesmente sobrevive a mais adaptável ao meio. Nas palavras do próprio Darwin:
“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta as mudanças”.
Não é preciso ressaltar o impacto que a “Origem” provocou ao ser publicada. Em conflito (inclusive com a esposa Emma Wedgood que era muito religiosa) e doente, Darwin esperou 20 anos para publicar sua grande obra, pois tinha plena consciência da polêmica que causaria. A respeito das críticas que recebeu, comentou:
“Considerando a ferocidade com que tenho sido atacado pelos ortodoxos, parece cômico que alguma vez pensara em ser clérigo. Não sinto remorso de haver cometido pecado grave algum. Quanto aos meus sentimentos religiosos, acerca dos quais tantas vezes me têm perguntado, considero-os como assunto que a ninguém possa interessar senão a mim mesmo. Posso adiantar, porém que não me parece haver qualquer incompatibilidade entre a aceitação da teoria evolucionista e a crença em Deus.”
Incompreendido por muitos, Darwin faleceu em 19 de abril de 1882 devido a complicações cardíacas nos deixando um grande legado.
Tabu, inclusive nos meios acadêmicos, a Origem das Espécies é uma obra atemporal, que nos remete a uma profunda reflexão sobre o destino de todas as espécies, sobretudo a humana, propondo uma mudança nos paradigmas da modernidade.


Para saber mais:
- A Origem das espécies. Ed. Escala. 2009.
- Autobiografía. Ed. Alianza Cien. 1993.
- A expressão das emoções no homem e nos animais. Cia. das Letras. 2000.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mais sobre a nova bactéria

A pedidos, segue um link da matéria sobre a nova descoberta da NASA.

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/afp/2010/12/02/nasa-encontra-estranhas-formas-de-vida-na-terra.jhtm

Bactéria descoberta pela NASA pode mudar paradigmas

Francamente essa notícia me pegou de surpresa.
Quando trabalhei com Microbiologia estava tão convicta que os elementos químicos que compunham o DNA eram imutáveis que jamais questionei o fato posteriormente. Durante toda a graduação, ao estudar biologia celular, citogenética, biologia molecular, lá estavam os compostos: C, H, O, N, P...
Mas sinceramente, o Arsênio era impensável.
Isso traz à luz um debate que muita gente prefere fugir e ameaça os paradigmas impostos.
Se Darwin "barbarizou"  muita gente ao escrever a Origem das espécies  em 1859 quando afirmava que a vida não é imutável e que os organismos estavam sujeitos à seleção natural, o que pensar de uma descoberta dessas?
Me faz pensar que a ciência, com todos os seus méritos (e acompanhada de sua arrogância) não deve ser dogmatizada. Afinal, nada é imutável.